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Canabidiol funciona para crise de ausência?

A crise de ausência é um tipo de epilepsia generalizada caracterizada por episódios breves (geralmente 5 a 20 segundos) em que a pessoa “desliga”: olha fixo, para o que está fazendo e depois retoma a atividade como se nada tivesse acontecido. É mais comum em crianças e costuma responder bem a medicamentos clássicos como etossuximida e valproato. Diante desse cenário, muitas famílias chegam ao consultório com a mesma pergunta: o canabidiol funciona para crise de ausência?

⚠️ Atenção: Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação de um neurologista. A epilepsia exige diagnóstico preciso e ajuste medicamentoso individualizado. Agende consulta com um médico prescritor →

A Resposta Direta: o canabidiol funciona para crise de ausência?

A resposta honesta é: não há evidência científica robusta de que o canabidiol seja eficaz especificamente para crises de ausência típicas. Os ensaios clínicos randomizados que consagraram o CBD na epilepsia foram feitos em epilepsias graves e refratárias — Síndrome de Dravet, Síndrome de Lennox-Gastaut e Complexo Esclerose Tuberosa — não em ausência típica isolada.

O que se pode afirmar com base na ciência atual:
  • O CBD tem evidência forte (ensaios clínicos de fase 3) em epilepsias refratárias graves, especialmente com componente convulsivo.
  • Em crise de ausência típica (childhood absence epilepsy), o tratamento de primeira linha continua sendo etossuximida, valproato ou lamotrigina — e a maioria dos pacientes responde bem a esses fármacos.
  • Quando a ausência faz parte de uma epilepsia mais ampla e refratária (ex.: Lennox-Gastaut, em que coexistem ausências atípicas e crises de queda), há evidência de que o CBD pode reduzir a frequência total de crises.
  • Em casos de ausência refratária ao tratamento convencional ou em síndromes mistas, alguns neurologistas avaliam o CBD como adjuvante — sempre individualmente.

Por que existe essa lacuna na pesquisa

A maior parte do investimento científico em CBD e epilepsia foi direcionada às síndromes refratárias mais graves justamente porque há uma necessidade clínica não atendida: crianças com Dravet ou Lennox-Gastaut frequentemente continuam tendo dezenas de crises por mês mesmo com vários antiepilépticos. Já as crises de ausência típicas, embora impactem a vida escolar e social, costumam ser bem controladas pelos fármacos clássicos — o que reduz o “espaço” terapêutico para novas drogas serem testadas.

“A pergunta correta para o neurologista não é apenas ‘CBD funciona para crise de ausência?’, mas ‘a ausência do meu paciente já foi adequadamente tratada com as drogas de primeira linha?’. Se sim, e a resposta foi insuficiente, aí faz sentido discutir alternativas — entre elas, em casos selecionados, o canabidiol como terapia adjuvante.” — Dr. Fabrício Pamplona

O que dizem os estudos

Os ensaios clínicos randomizados de fase 3 com CBD em epilepsia incluíram pacientes com síndromes em que diferentes tipos de crises coexistem — incluindo ausências atípicas, mas não como desfecho isolado.

Devinsky et al. (2017) — Síndrome de Dravet — NEJM
RCT duplo-cego, N=120 crianças e jovens. O CBD reduziu a frequência mediana de crises convulsivas de 12,4 para 5,9 por mês (vs. queda de 14,9 para 14,1 no placebo). 5% dos pacientes ficaram livres de crises com CBD vs. 0% no placebo. Dose do protocolo do ensaio: 20 mg/kg/dia — referência de pesquisa, não recomendação prática.
Thiele et al. (2018) — Lennox-Gastaut — The Lancet (GWPCARE4)
N=171 pacientes. O CBD em dose elevada reduziu a mediana de crises de queda em 43,9% vs. 21,8% no placebo, ao longo de 14 semanas. Dose do protocolo: 20 mg/kg/dia. Em LGS, ausências atípicas frequentemente coexistem com crises de queda, mas o desfecho primário foi crise de queda.
Thiele et al. (2021) — Complexo Esclerose Tuberosa — JAMA Neurology
RCT, N=224. Redução mediana de crises de 48,6% e 47,5% (duas doses elevadas de CBD) vs. 26,5% no placebo. Doses do protocolo: 25 e 50 mg/kg/dia.
Szaflarski et al. (2018) — Programa de Acesso Expandido — Epilepsia
N=607 pacientes com epilepsia refratária de várias etiologias. Redução média próxima de 50% nas crises após 12 semanas, sustentada até 96 semanas. Boa tolerabilidade a longo prazo.

Nenhum desses estudos respondeu diretamente à pergunta sobre crise de ausência típica. Há relatos de caso e séries clínicas sugerindo que alguns pacientes com ausência refratária podem se beneficiar do CBD adjuvante, mas a qualidade dessa evidência é baixa quando comparada aos RCTs em síndromes refratárias graves.

Quando faz sentido considerar CBD em crise de ausência

Em linhas gerais, o canabidiol entra na conversa em três cenários:

  1. Ausências refratárias que não responderam adequadamente a etossuximida, valproato e lamotrigina, isoladamente ou em combinação.
  2. Síndromes epilépticas mistas em que a ausência (geralmente atípica) faz parte de um quadro mais amplo, como Lennox-Gastaut.
  3. Intolerância significativa aos fármacos clássicos, com prejuízo de qualidade de vida — situação em que o médico avalia o balanço risco-benefício de adicionar ou substituir terapias.
Importante: em epilepsia, qualquer mudança terapêutica — incluindo adicionar canabidiol, reduzir um anticonvulsivante ou trocar de fármaco — deve ser feita exclusivamente sob orientação do neurologista. Interrupções ou ajustes por conta própria podem desencadear crises mais frequentes ou status epilepticus.

Produtos de referência no mercado

Quando o neurologista indica o canabidiol, a família costuma se deparar com várias marcas e formulações. A tabela abaixo serve apenas como parâmetro de mercado para comparar composição e custo — não é recomendação de produto para crise de ausência. A escolha terapêutica é sempre do médico prescritor, com base no diagnóstico, no perfil de crises e na resposta clínica do paciente.

MarcaProdutoPreço
CannavivaFull Spectrum CBD 6000 mg / 30 mLR$ 350
Canna RiverFull Spectrum Classic CBD 6000 mg / 60 mLR$ 390
cbdMDFull Spectrum CBD 6000 mg / 30 mLR$ 377
Lazarus NaturalsFull Spectrum CBD 1500 mg / 30 mLR$ 156
ASPAECÓleo Full Spectrum (associação — taxa)R$ 30

Existem muitos medicamentos à base de Cannabis medicinal disponíveis no mercado. Os produtos citados servem como parâmetro ilustrativo de composição e faixa de preço — não constituem recomendação de compra. A escolha do medicamento, da dose e da via de acesso é sempre definida pelo médico prescritor com base no quadro clínico individual do paciente.

Sobre Full Spectrum, THC e regulação: os produtos Full Spectrum listados acima contêm THC em pequenas quantidades (até 0,3% no padrão aceito pela Anvisa para importação via RDC 660). Sua aquisição no Brasil exige receita médica e autorização de importação Anvisa. Em epilepsia, a escolha entre Full Spectrum, Broad Spectrum, isolado ou Epidiolex (CBD purificado farmacêutico) é definida pelo neurologista — em alguns casos refratários, o médico pode optar por outro perfil de canabinoides conforme a evolução do tratamento.

Perguntas Frequentes

Canabidiol funciona para crise de ausência típica?

Não há evidência científica robusta de eficácia do CBD especificamente para crise de ausência típica (childhood absence epilepsy). Os ensaios clínicos de fase 3 foram feitos em epilepsias refratárias graves, como Dravet e Lennox-Gastaut. O tratamento de primeira linha para ausência típica continua sendo etossuximida, valproato ou lamotrigina.

E em ausências atípicas dentro de síndromes refratárias?

Em síndromes como Lennox-Gastaut, em que ausências atípicas convivem com crises de queda e outras formas, o CBD demonstrou reduzir significativamente a frequência total de crises em ensaios clínicos randomizados. Nesses casos, é uma opção bem estabelecida como terapia adjuvante.

Posso considerar CBD para ausências que não respondem aos remédios clássicos?

Em casos de ausências refratárias, alguns neurologistas avaliam o CBD como adjuvante, mas com expectativas calibradas: a evidência específica é limitada a relatos de caso e séries pequenas. A decisão deve ser individualizada com o médico que acompanha o paciente.

Qual a diferença entre Epidiolex e óleos Full Spectrum?

O Epidiolex é CBD purificado, registrado como medicamento pela FDA e Anvisa para Dravet, Lennox-Gastaut e Complexo Esclerose Tuberosa. Os óleos Full Spectrum contêm CBD predominante mais outros canabinoides em pequenas quantidades (incluindo THC até 0,3%). A escolha depende de indicação, custo e disponibilidade — sempre orientada pelo médico.

Posso usar CBD para epilepsia em crianças?

Sim, desde que prescrito e acompanhado por neurologista. A dose é definida pelo médico em mg totais por dia, ajustada conforme peso, idade, tipo de epilepsia e resposta clínica. Veja o guia completo de dose para epilepsia.

O CBD interage com os antiepilépticos da minha filha?

Sim, há interações clinicamente relevantes — especialmente com o clobazam, em que o CBD aumenta os níveis do metabólito ativo (N-desmetilclobazam) e pode potencializar sedação. Valproato em conjunto com CBD pode aumentar enzimas hepáticas. Por isso o acompanhamento médico com exames laboratoriais é essencial.

O CBD pode substituir o anticonvulsivante atual?

Em geral, não. O CBD é usado como terapia adjuvante (somado aos antiepilépticos) e não como substituto. Qualquer redução ou retirada de um anticonvulsivante deve ser feita gradualmente e exclusivamente pelo neurologista — interromper abruptamente pode desencadear crises.

Em quanto tempo o CBD começa a reduzir as crises?

Não há cronologia precisa estabelecida. Em geral, o efeito é avaliado ao longo de semanas a meses, com titulação gradual da dose. Os estudos mostram redução significativa após 12 semanas, sustentada a longo prazo.

Existe risco de “crise de rebote” se eu interromper o CBD?

Em pacientes com epilepsia, a interrupção abrupta de qualquer terapia que esteja contribuindo para o controle das crises pode levar à piora. Por isso, ajustes e suspensões devem ser sempre conduzidos pelo neurologista de forma gradual.

O canabidiol é seguro a longo prazo em epilepsia?

A literatura disponível, incluindo o programa de acesso expandido com mais de 600 pacientes (Szaflarski 2018), mostra boa tolerabilidade a longo prazo. Os efeitos colaterais mais comuns são sonolência, alteração de apetite e elevação transitória de enzimas hepáticas — manejáveis com ajuste de dose e monitoramento.

Como a Fito Canábica Apoia Famílias com Epilepsia

  • Conexão com médicos prescritores experientes em Cannabis medicinal e epilepsia
  • Consulta online a partir de R$ 180
  • Orientação completa sobre autorização Anvisa, importação via RDC 660 e produtos nacionais
  • Acompanhamento durante a titulação da dose
  • Suporte por WhatsApp para dúvidas no tratamento

O tratamento com canabidiol é um tratamento sério que requer atenção profissional especializada. O melhor caminho começa pela consulta com um médico qualificado em prescrição de cannabis medicinal, preferencialmente com experiência em epilepsia. O médico avalia o caso, define o produto e a dose-alvo, e emite a receita. Depois disso, o paciente faz a aquisição do medicamento e inicia o tratamento conforme orientação médica. Existem caminhos que facilitam essa jornada: a Fito Canábica conecta pacientes a médicos prescritores qualificados, com consulta a partir de R$ 180.

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Dr. Fabrício Pamplona é farmacologista e pesquisador brasileiro, Doutor em Psicofarmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pelo Instituto Max Planck de Psiquiatria (Munique, Alemanha). Dedica-se há mais de 20 anos ao estudo do sistema endocanabinoide e ao desenvolvimento de terapias à base de Cannabis medicinal. Autor de mais de 50 artigos científicos publicados em revistas internacionais, é sócio da Fito Canábica e atua traduzindo a ciência da Cannabis para a prática clínica com linguagem acessível, responsabilidade e foco no paciente.

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Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou prescrição médica. O uso de Cannabis medicinal requer avaliação e prescrição de médico habilitado. Procure um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer tratamento.

Referências:

  1. Devinsky O, Cross JH, Laux L, et al. (2017) Trial of Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in the Dravet Syndrome. NEJM. doi:10.1056/NEJMoa1611618.
  2. Devinsky O, Patel AD, Cross JH, et al. (2018) Effect of Cannabidiol on Drop Seizures in the Lennox-Gastaut Syndrome. NEJM. doi:10.1056/NEJMoa1714631.
  3. Thiele EA, Marsh ED, French JA, et al. (2018) Cannabidiol in patients with seizures associated with Lennox-Gastaut syndrome (GWPCARE4). The Lancet. doi:10.1016/S0140-6736(18)30136-3.
  4. Thiele EA, Bebin EM, Bhathal H, et al. (2021) Add-on Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in Tuberous Sclerosis Complex. JAMA Neurology. doi:10.1001/jamaneurol.2020.4607.
  5. Szaflarski JP, Bebin EM, Comi AM, et al. (2018) Long-term safety and treatment effects of cannabidiol in children and adults with treatment-resistant epilepsies. Epilepsia. doi:10.1111/epi.14477.
  6. Gaston TE, Bebin EM, Cutter GR, Liu Y, Szaflarski JP. (2017) Interactions between cannabidiol and commonly used antiepileptic drugs. Epilepsia. doi:10.1111/epi.13852.
  7. WHO (2018) Cannabidiol (CBD) Critical Review Report. WHO Expert Committee on Drug Dependence — 40th ECDD Meeting.
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