Sim. As Síndromes de Dravet e de Lennox-Gastaut são, hoje, as condições com a evidência científica mais robusta sobre o uso de canabidiol como tratamento adjuvante. Estudos clínicos randomizados publicados em revistas como The New England Journal of Medicine e The Lancet demonstraram redução significativa da frequência de crises em crianças e adultos com essas duas formas raras e graves de epilepsia refratária — e foram justamente esses ensaios que abriram caminho para a aprovação do CBD como medicamento em diversos países.
Este artigo reúne, de forma direta, o que a literatura mostra sobre eficácia, perfil dos pacientes que mais se beneficiam, expectativas realistas de resposta e como funciona o tratamento na prática clínica brasileira.
⚠️ Importante: Síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut são condições neurológicas graves que exigem acompanhamento de neurologista pediátrico ou epileptologista experiente. O canabidiol é tratamento adjuvante — não substitui anticonvulsivantes nem dispensa avaliação especializada. Agende sua consulta com os médicos prescritores da Fito Canábica →
A Resposta Direta: o canabidiol funciona para Dravet e Lennox-Gastaut?
Sim, com evidência científica de alto nível (RCTs duplo-cegos publicados em NEJM e The Lancet). O canabidiol reduz a frequência de crises convulsivas em crianças e adultos com essas síndromes quando associado aos anticonvulsivantes que o paciente já utiliza.
- Síndrome de Dravet (Devinsky et al., 2017, NEJM): redução da frequência mediana de crises convulsivas de 12,4 para 5,9 por mês com CBD vs. queda de 14,9 para 14,1 no placebo. 5% dos pacientes ficaram livres de crises com CBD vs. 0% no placebo.
- Síndrome de Lennox-Gastaut (Devinsky et al., 2018, NEJM): redução das chamadas drop seizures (crises de queda) em 41,9% com CBD 20 mg/kg/dia vs. 17,2% no placebo.
- Lennox-Gastaut (Thiele et al., 2018, The Lancet): redução mediana de crises de queda de 43,9% com CBD 20 mg/kg/dia vs. 21,8% no placebo, em 14 semanas.
Esses dados levaram a Organização Mundial da Saúde, em seu relatório técnico de 2018, a reconhecer formalmente a eficácia do canabidiol nessas epilepsias refratárias graves. Para uma visão mais ampla da evidência em epilepsia, veja nosso guia completo sobre canabidiol e epilepsia.
Por que essas duas síndromes foram as primeiras com evidência forte
Tanto Dravet quanto Lennox-Gastaut são encefalopatias epilépticas de início na infância, com crises de difícil controle, múltiplos tipos de crises ao longo do dia e impacto profundo no neurodesenvolvimento. Famílias frequentemente passam por 3, 4, 5 ou mais anticonvulsivantes sem alcançar controle adequado — e foi exatamente nesse cenário de necessidade clínica não atendida que os ensaios com canabidiol foram desenhados.
“O canabidiol não é uma cura para essas síndromes, mas é um dos avanços mais importantes da neurologia pediátrica nas últimas décadas. Falamos de crianças com 50, 80, 100 crises por mês — e em uma parcela significativa dos pacientes vemos essa frequência cair pela metade ou mais. Para essas famílias, isso muda completamente a rotina e a qualidade de vida.” — Dr. Fabrício Pamplona
O mecanismo exato pelo qual o CBD reduz crises ainda é objeto de pesquisa. Sabe-se que ele atua de forma multimodal: modula receptores GPR55, canais TRPV1, recaptação de adenosina e o tônus do sistema endocanabinoide — diferentemente dos anticonvulsivantes clássicos, que agem principalmente em canais de sódio ou GABA.
O que dizem os estudos — em detalhe
Síndrome de Dravet
RCT duplo-cego, N=120 crianças e jovens. CBD 20 mg/kg/dia vs. placebo, ambos somados aos anticonvulsivantes habituais. A frequência mediana de crises convulsivas caiu de 12,4 para 5,9/mês no grupo CBD; no placebo, de 14,9 para 14,1/mês. 43% dos pacientes em CBD tiveram redução ≥50% nas crises, contra 27% no placebo.
Síndrome de Lennox-Gastaut
RCT duplo-cego, N=225. Duas doses testadas: CBD 20 mg/kg/dia reduziu crises de queda em 41,9%; CBD 10 mg/kg/dia em 37,2%; placebo em 17,2%.
RCT fase 3, N=171. Redução mediana de crises de queda de 43,9% com CBD 20 mg/kg/dia vs. 21,8% no placebo, ao longo de 14 semanas.
Eficácia sustentada no longo prazo
N=607 pacientes com epilepsias refratárias (incluindo Dravet, Lennox-Gastaut e outras). Redução média de 51% na frequência de crises após 12 semanas, sustentada até 96 semanas. Boa tolerabilidade no uso prolongado.
Esse perfil de manutenção do efeito a longo prazo é especialmente importante em epilepsias graves, em que muitas famílias temem perder a resposta com o tempo — algo que ocorre com vários anticonvulsivantes clássicos. Os dados disponíveis até hoje não mostram esse padrão de tolerância farmacológica com o CBD.
Aplicação prática: como começa o tratamento
Dose
Nos ensaios clínicos pivôs, as doses usadas foram de 10 a 20 mg/kg/dia (linguagem médica). Em mg totais — que é como falamos com a família —, isso significa, por exemplo, 200 a 400 mg/dia para uma criança de 20 kg. A dose nunca começa nesse patamar: o médico inicia em 2–5 mg/kg/dia e sobe gradualmente ao longo de semanas, observando resposta e tolerabilidade. Para entender melhor a conversão entre mg/kg, mg totais e gotas, veja o guia de dose de canabidiol para epilepsia.
Quanto tempo até ver redução das crises
Não há cronologia precisa universal. Nos estudos, o efeito começa a aparecer já nas primeiras semanas, mas a resposta plena costuma se consolidar ao longo de 8 a 12 semanas de titulação progressiva. Em alguns pacientes a resposta é precoce e marcante; em outros, demora mais e é mais discreta. A avaliação correta é feita pelo médico com diário de crises.
Expectativas realistas
- A maioria dos pacientes não fica livre de crises. O ganho clínico mais comum é redução ≥50% na frequência.
- Cerca de 5% dos pacientes com Dravet ficaram completamente livres de crises nos estudos com CBD — resultado expressivo para uma síndrome historicamente refratária.
- Famílias relatam, além da redução de crises, ganhos secundários: melhor sono, mais alerta, mais interação, menos eventos de queda e menos hospitalizações. Esses ganhos não são prometidos, mas aparecem com frequência na prática clínica.
- O CBD é tratamento adjuvante: ele é somado aos anticonvulsivantes — não os substitui automaticamente. Eventual redução de outros medicamentos é decisão do neurologista, feita aos poucos, conforme evolução.
Produtos usados na prática
No Brasil, dois caminhos são comuns: óleos Full Spectrum importados via RDC 660 (com receita e autorização Anvisa) e produtos via associações (RDC 327). O Epidiolex, CBD purificado farmacêutico usado nos estudos, está disponível em alguns países, mas com custo significativamente mais elevado. Em pacientes pediátricos, frequentemente o médico opta por Full Spectrum com baixíssimo teor de THC ou Broad Spectrum, conforme o caso.
Existem muitos medicamentos à base de Cannabis medicinal disponíveis no mercado. Os produtos citados a seguir são mencionados como parâmetro ilustrativo de composição e faixa de preço — não constituem recomendação de compra. A escolha do medicamento, da dose e da via de acesso é sempre definida pelo médico prescritor com base no quadro clínico individual do paciente.
| Marca / Produto | Composição | Volume | Preço de referência |
|---|---|---|---|
| Cannaviva Full Spectrum | CBD 6000 mg | 30 mL (200 mg/mL) | R$ 350 |
| Canna River Full Spectrum Classic | CBD 6000 mg | 60 mL (100 mg/mL) | R$ 390 |
| cbdMD Full Spectrum | CBD 6000 mg + THC 60 mg | 30 mL (200 mg/mL) | R$ 377 |
| Lazarus Naturals Full Spectrum | CBD 1500 mg | 30 mL (50 mg/mL) | R$ 156 |
| ASPAEC (associação) | Óleo Full Spectrum | — | Taxa associativa |
As opções citadas servem para comparar composição e custo; o medicamento adequado para cada criança com Dravet ou Lennox-Gastaut — inclusive a concentração, o espectro e o eventual ajuste em outros canabinoides — é definido pelo neurologista prescritor com base no quadro clínico, no peso, nos medicamentos em uso e na evolução do tratamento.
Para uma comparação mais ampla da evidência em quadros refratários, veja canabidiol para epilepsia refratária e canabidiol funciona mesmo para epilepsia refratária?.
Perguntas Frequentes
O canabidiol é aprovado para Síndrome de Dravet e Lennox-Gastaut?
Sim. Em diversos países (incluindo EUA e União Europeia), o CBD purificado farmacêutico (Epidiolex/Epidyolex) é formalmente aprovado para Dravet, Lennox-Gastaut e Complexo Esclerose Tuberosa. No Brasil, o acesso é feito via prescrição médica com produtos autorizados pela Anvisa (RDC 660 — importação direta) ou via associações (RDC 327).
Quanto o canabidiol reduz as crises na Síndrome de Dravet?
No estudo pivô (Devinsky et al., 2017, NEJM), a frequência mediana de crises convulsivas caiu de 12,4 para 5,9 por mês com CBD, contra uma queda mínima de 14,9 para 14,1 no placebo. Cerca de 43% dos pacientes em CBD tiveram redução de pelo menos 50% nas crises, e 5% ficaram livres de crises.
Quanto o canabidiol reduz as crises na Síndrome de Lennox-Gastaut?
Nos dois RCTs principais (Devinsky et al., 2018, NEJM; Thiele et al., 2018, The Lancet), o CBD 20 mg/kg/dia reduziu as crises de queda em cerca de 42% a 44%, contra 17% a 22% no placebo, ao longo de 14 semanas.
Quem pode se beneficiar — apenas crianças?
Não. Os estudos incluíram crianças, adolescentes e adultos. Lennox-Gastaut e Dravet começam na infância, mas seguem na vida adulta — e a indicação do CBD vale ao longo da vida, sob avaliação médica.
O canabidiol substitui os anticonvulsivantes?
Não. O CBD é tratamento adjuvante: somado aos anticonvulsivantes que o paciente já toma. Em alguns casos, com boa resposta sustentada, o neurologista avalia a possibilidade de reduzir gradualmente outros medicamentos — sempre de forma planejada, nunca por conta própria.
Existe interação importante com clobazam ou valproato?
Sim, e isso é especialmente relevante em Dravet e Lennox-Gastaut. O CBD aumenta os níveis de N-desmetilclobazam, metabólito ativo do clobazam, podendo intensificar sedação (Gaston et al., 2017). Com valproato, há recomendação de monitorar transaminases. O médico maneja isso com ajustes de dose e exames periódicos.
Em quanto tempo se observa redução das crises?
Os primeiros sinais podem aparecer nas primeiras semanas, mas a resposta clínica completa costuma se consolidar em 8 a 12 semanas, conforme a dose é titulada gradualmente. Não existe um prazo universal — varia caso a caso.
O efeito do CBD se mantém no longo prazo?
Os dados disponíveis (Szaflarski et al., 2018, com seguimento de até 96 semanas) mostram manutenção da redução média de crises ao longo do tempo, com boa tolerabilidade — diferentemente do que se observa com vários anticonvulsivantes clássicos, que perdem eficácia com o uso prolongado.
O canabidiol também funciona para outras epilepsias raras, como Esclerose Tuberosa?
Sim. O estudo GWPCARE6 (Thiele et al., 2021, JAMA Neurology) mostrou redução mediana de crises de cerca de 48% no Complexo Esclerose Tuberosa, contra 26,5% no placebo. É outra encefalopatia epiléptica grave em que o CBD tem evidência forte.
O canabidiol é seguro para crianças com epilepsia?
Sim, com acompanhamento médico. Os efeitos colaterais mais relatados nos estudos são sonolência, redução de apetite, diarreia e elevação transitória de transaminases (especialmente quando associado ao valproato). Todos manejáveis com ajuste de dose. Detalhes em canabidiol para epilepsia em crianças é seguro?.
É possível interromper o canabidiol de uma hora para outra?
Não. Em pacientes com epilepsia, qualquer suspensão de medicação que esteja controlando crises — incluindo o CBD — deve ser feita de forma gradual, com supervisão do neurologista, para evitar risco de piora ou crises de rebote.
Qual é o caminho para iniciar o tratamento no Brasil?
Consulta com neurologista (de preferência epileptologista ou neuropediatra) com experiência em Cannabis medicinal, avaliação do caso, definição de dose-alvo e produto, emissão da receita e da prescrição com justificativa, e então a aquisição via associação (RDC 327) ou importação com autorização Anvisa (RDC 660). A Fito Canábica orienta esse percurso.
Como a Fito Canábica apoia famílias com Dravet e Lennox-Gastaut
O tratamento com canabidiol em encefalopatias epilépticas como Dravet e Lennox-Gastaut é um tratamento sério, que exige acompanhamento de um médico qualificado em prescrição de Cannabis medicinal, preferencialmente com experiência em epilepsia pediátrica. O médico avalia o caso, considera os medicamentos em uso, define o produto e a dose-alvo, e emite a receita com a justificativa clínica. Depois disso, a família faz a aquisição do medicamento e inicia o tratamento conforme orientação médica, com retornos periódicos para titulação.
A Fito Canábica conecta pacientes a médicos prescritores qualificados — entre eles a Dra. Victoria Taveira, a Dra. Clara Calabrich, o Dr. Diego Araldi e a Dra. Nathalie Vestarp — com consulta a partir de R$ 180. Oferecemos:
- Avaliação médica especializada em Cannabis medicinal
- Orientação completa sobre autorização Anvisa e importação RDC 660
- Indicação de medicamentos com bom custo-benefício para tratamento contínuo
- Acompanhamento farmacêutico durante a titulação
- Suporte por WhatsApp para dúvidas no tratamento
- Consultas de retorno periódicas para ajuste de dose
Agende sua consulta com os médicos prescritores da Fito Canábica →
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- Canabidiol para Epilepsia Refratária: O que Diz a Ciência
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- Canabidiol para epilepsia em crianças é seguro?
- Dosagem de canabidiol — guia geral
- Autorização Anvisa para canabidiol — passo a passo
Dr. Fabrício Pamplona é farmacologista e pesquisador brasileiro, Doutor em Psicofarmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pelo Instituto Max Planck de Psiquiatria (Munique, Alemanha). Dedica-se há mais de 20 anos ao estudo do sistema endocanabinoide e ao desenvolvimento de terapias à base de Cannabis medicinal. Autor de mais de 50 artigos científicos publicados em revistas internacionais, é sócio da Fito Canábica e atua traduzindo a ciência da Cannabis para a prática clínica com linguagem acessível, responsabilidade e foco no paciente.
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Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou prescrição médica. O uso de Cannabis medicinal requer avaliação e prescrição de médico habilitado. Procure um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer tratamento.
Referências- Devinsky O, Cross JH, Laux L, et al. Trial of Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in the Dravet Syndrome. N Engl J Med. 2017;376(21):2011-2020. doi:10.1056/NEJMoa1611618.
- Devinsky O, Patel AD, Cross JH, et al. Effect of Cannabidiol on Drop Seizures in the Lennox-Gastaut Syndrome. N Engl J Med. 2018;378(20):1888-1897. doi:10.1056/NEJMoa1714631.
- Thiele EA, Marsh ED, French JA, et al. Cannabidiol in patients with seizures associated with Lennox-Gastaut syndrome (GWPCARE4): a randomised, double-blind, placebo-controlled phase 3 trial. Lancet. 2018;391(10125):1085-1096. doi:10.1016/S0140-6736(18)30136-3.
- Thiele EA, Bebin EM, Bhathal H, et al. Add-on Cannabidiol Treatment for Drug-Resistant Seizures in Tuberous Sclerosis Complex. JAMA Neurol. 2021;78(3):285-292. doi:10.1001/jamaneurol.2020.4607.
- Szaflarski JP, Bebin EM, Comi AM, et al. Long-term safety and treatment effects of cannabidiol in children and adults with treatment-resistant epilepsies: Expanded access program results. Epilepsia. 2018;59(8):1540-1548. doi:10.1111/epi.14477.
- Gaston TE, Bebin EM, Cutter GR, Liu Y, Szaflarski JP. Interactions between cannabidiol and commonly used antiepileptic drugs. Epilepsia. 2017;58(9):1586-1592. doi:10.1111/epi.13852.
- World Health Organization. Cannabidiol (CBD) Critical Review Report. WHO Expert Committee on Drug Dependence — 40th ECDD Meeting; 2018.
