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Canabidiol para epilepsia em crianças é seguro?

Quando a família de uma criança com epilepsia ouve falar pela primeira vez em canabidiol (CBD), uma das primeiras perguntas é praticamente sempre a mesma: isso é seguro para uma criança? A pergunta faz sentido, e merece uma resposta honesta, baseada nos estudos clínicos que avaliaram justamente esse cenário — crianças e adolescentes em uso de CBD por meses e anos seguidos.

A boa notícia é que o canabidiol está entre as opções terapêuticas mais bem estudadas em epilepsia pediátrica refratária dos últimos dez anos. Os ensaios clínicos randomizados publicados em revistas como New England Journal of Medicine, The Lancet e JAMA Neurology mostraram um perfil de segurança favorável — especialmente quando comparado a vários anticonvulsivantes convencionais usados nas mesmas crianças.

⚠️ Aviso: Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica. Crianças com epilepsia precisam de acompanhamento neurológico contínuo, e qualquer alteração de tratamento — inclusive a introdução de CBD — deve ser feita por médico prescritor experiente.

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A Resposta Direta: o canabidiol é seguro em crianças com epilepsia?

Sim, o canabidiol tem perfil de segurança considerado favorável em crianças com epilepsia, com base em ensaios clínicos randomizados e em programas de uso expandido com acompanhamento de até 96 semanas (cerca de 2 anos). Os efeitos colaterais mais frequentemente observados são leves a moderados, transitórios e dose-dependentes — ou seja, costumam ceder com ajuste da dose pelo médico.

Os principais pontos consolidados na literatura científica são:

  • Não há relato de morte por overdose de CBD em toda a literatura mundial (OMS, 2018) [7].
  • O CBD não causa dependência e não tem potencial de abuso (OMS, 2018) [7].
  • Os efeitos colaterais mais comuns em crianças são sonolência, redução do apetite, diarreia e fadiga, geralmente leves e transitórios [1][2][5].
  • Pode haver elevação transitória de enzimas hepáticas, especialmente quando associado a valproato — por isso o monitoramento laboratorial periódico é parte do tratamento [5].
  • A tolerabilidade a longo prazo foi mantida em estudos de até 96 semanas, sem surgimento de problemas de segurança novos com o tempo (Szaflarski et al., 2018) [5].
Em uma frase: nas doses usadas para epilepsia pediátrica e com acompanhamento médico, o canabidiol é considerado seguro pela literatura científica internacional — e seu perfil de efeitos colaterais é, em geral, mais brando que o de muitos anticonvulsivantes convencionais.

Por que o CBD é considerado seguro em crianças

O canabidiol não age como um anticonvulsivante clássico. Ele não bloqueia diretamente canais de sódio ou cálcio nem age como agonista GABAérgico forte (mecanismos típicos de medicamentos como fenitoína, carbamazepina ou benzodiazepínicos). Sua ação envolve modulação do sistema endocanabinoide, ação sobre receptores TRPV1, GPR55 e influência sobre a liberação de neurotransmissores excitatórios — um perfil farmacológico que se traduz em menor toxicidade aguda.

Além disso, diferentemente do THC, o CBD não é psicoativo. Isso é especialmente importante em pediatria: a criança não fica “alterada”, não tem alteração de consciência associada ao medicamento e mantém suas funções cognitivas básicas preservadas.

“Quando avaliamos o perfil de segurança do CBD em crianças com epilepsia refratária, é importante lembrar do contexto: estamos comparando com cenários em que muitas dessas crianças já fazem uso de 3, 4 ou mais anticonvulsivantes simultaneamente, com efeitos colaterais cumulativos importantes. Nesse contexto, o CBD entra como uma opção adicional com perfil de tolerabilidade favorável e sem o impacto cognitivo que vemos com várias drogas convencionais.” — Dr. Fabrício Pamplona, farmacologista PhD pelo Max Planck

O que dizem os estudos sobre segurança em crianças

Devinsky et al. (2017) — Síndrome de Dravet

Ensaio clínico randomizado, duplo-cego, com 120 crianças e jovens com Síndrome de Dravet. Os efeitos colaterais mais frequentes foram sonolência, diarreia, redução do apetite, fadiga e vômito. A maioria foi classificada como leve a moderada [1].

Devinsky et al. (2018) e Thiele et al. (2018) — Síndrome de Lennox-Gastaut

Dois grandes ensaios randomizados com pacientes pediátricos e adultos. Os eventos adversos mais comuns continuaram sendo sonolência, redução de apetite e diarreia. As elevações de enzimas hepáticas foram mais frequentes em pacientes em uso concomitante de valproato — e reverteram com ajuste de dose [2][3].

Szaflarski et al. (2018) — programa de uso expandido por até 96 semanas

Acompanhamento de 607 pacientes (crianças e adultos) com epilepsia refratária por até 96 semanas. Não surgiram novos problemas de segurança ao longo do tempo, e a tolerabilidade se manteve. Esse é hoje um dos dados mais relevantes para tranquilizar famílias quanto ao uso prolongado [5].

Thiele et al. (2021) — Complexo Esclerose Tuberosa

Ensaio clínico com 224 pacientes, incluindo crianças. Mesmo nas doses mais altas (até 50 mg/kg/dia), o perfil de efeitos colaterais permaneceu manejável com ajustes de dose [4].

OMS (2018) — revisão crítica

A Organização Mundial da Saúde concluiu que o CBD é bem tolerado, não tem potencial de abuso ou dependência, e não há relato de morte por overdose [7].

Quais efeitos colaterais podem aparecer (e o que fazer)

Efeito colateralFrequênciaCaracterísticaConduta usual
Sonolência / sedação leveComum no inícioTransitóriaAjustar horário e dose
Redução de apetiteComumGeralmente leveAcompanhar peso e hidratação
DiarreiaComum em doses altasFrequentemente ligada ao veículo (óleo MCT)Reduzir dose ou trocar formulação
FadigaPouco frequenteReversívelReavaliar dose
Elevação de enzimas hepáticasMais comum com valproatoGeralmente assintomáticaMonitorar com exames periódicos
Interações medicamentosas (ex.: clobazam)Relevante clinicamenteAumento do metabólito ativoAjuste de dose pelo neurologista

O ponto mais importante: quase todos esses efeitos são dose-dependentes. Quando aparecem, costumam indicar que a dose está acima do ideal naquele momento — e cedem com ajuste. Esse é o motivo pelo qual a titulação é feita lentamente, em semanas, com acompanhamento médico.

Atenção à interação com clobazam: o CBD aumenta os níveis de N-desmetilclobazam (metabólito ativo do clobazam), o que pode intensificar tanto o efeito anticonvulsivante quanto a sedação (Gaston et al., 2017) [6]. Isso não é motivo para evitar a combinação — é motivo para que o neurologista ajuste a dose com base na resposta clínica. Veja mais em nosso artigo sobre interações entre CBD e anticonvulsivantes.

Cuidados práticos para um tratamento seguro

  • Acompanhamento neurológico contínuo — o CBD é parte do tratamento, não substitui o neurologista nem os anticonvulsivantes que estão funcionando.
  • Exames laboratoriais periódicos — monitoramento de função hepática, especialmente nos primeiros 3 a 6 meses e em pacientes em uso de valproato.
  • Titulação lenta — começar em dose baixa e subir gradualmente reduz drasticamente a chance de efeitos colaterais.
  • Não interromper abruptamente — em qualquer anticonvulsivante (incluindo CBD usado com essa finalidade), suspensões bruscas podem aumentar risco de crises.
  • Produto de origem confiável — laudo de análise (Certificate of Analysis), origem rastreável e via legal de aquisição (associação ou importação via RDC 660).
  • Comunicação clara com a equipe sobre qualquer mudança no padrão de crises, sono, apetite ou comportamento da criança.

Para entender melhor a parte prática da dosagem, vale a leitura do nosso guia completo de dose de canabidiol para epilepsia, que explica em detalhe como o cálculo é feito em mg/kg, mg totais e número de gotas.

Sobre os produtos usados em pediatria

Em crianças com epilepsia, a escolha do produto é decisão médica, baseada no quadro clínico, na idade, no peso e no acesso. Apresentamos abaixo opções de mercado a título educativo, para parametrizar concentração e custo — não como recomendação de compra:

Cannaviva Full Spectrum 6000mg/30mL — concentração de 200 mg/mL, útil quando o médico precisa de doses mais altas com menor volume de gotas.
R$ 350
Canna River Full Spectrum Classic 6000mg/60mL — concentração de 100 mg/mL, perfil amplo de canabinoides.
R$ 390
cbdMD Full Spectrum 6000mg/30mL — Full Spectrum com teor mínimo de THC (≤0,3%).
R$ 377
ASPAEC — Óleo Full Spectrum (associação) — via associação de pacientes, com taxa associativa.
A partir de R$ 30 (taxa)

Existem muitos medicamentos à base de Cannabis medicinal disponíveis no mercado. Os produtos citados neste artigo são mencionados como parâmetro ilustrativo de composição e faixa de preço — não constituem recomendação de compra. As opções citadas servem para comparar composição e custo; o medicamento adequado para uma criança com epilepsia — inclusive a definição entre Full Spectrum, Broad Spectrum, isolado ou Epidiolex — é definido pelo médico com base no diagnóstico, no peso, na idade e na evolução clínica.

Perguntas Frequentes

Canabidiol pode ser usado em bebês com epilepsia?

Sim, em casos selecionados. Estudos com Síndrome de Dravet incluíram crianças a partir de 2 anos, e há experiência clínica de uso em pacientes ainda mais novos com epilepsias graves. A decisão sempre é do neuropediatra, com base no risco-benefício do quadro específico.

O CBD afeta o desenvolvimento cognitivo da criança?

Não há evidência de prejuízo cognitivo com o uso de CBD em crianças com epilepsia. Pelo contrário: nos estudos com epilepsias refratárias, vários relatos descrevem melhora de alerta e cognição quando há redução das crises e quando outros anticonvulsivantes sedativos podem ser ajustados.

O CBD pode causar problemas no fígado?

Pode haver elevação transitória de enzimas hepáticas, principalmente em pacientes em uso simultâneo de valproato. Por isso o acompanhamento laboratorial é parte do tratamento. Quando a alteração aparece, o ajuste de dose costuma ser suficiente para reverter.

Quanto tempo a criança precisa usar CBD para saber se funcionou?

Em geral, o médico avalia resposta após 8 a 12 semanas de titulação completa. Reduções de crises podem aparecer já nas primeiras semanas, mas a avaliação consistente exige mais tempo de acompanhamento.

O canabidiol vicia?

Não. A OMS, em revisão crítica de 2018, concluiu que o CBD não tem potencial de abuso nem causa dependência [7]. Esse é um dos pontos que diferenciam o CBD de muitos outros anticonvulsivantes e psicotrópicos.

O CBD pode causar mais crises na criança?

Não há evidência de que o CBD provoque crises em pacientes com epilepsia — o efeito documentado é o oposto. Porém, suspender o CBD bruscamente em uma criança que estabilizou pode favorecer reaparecimento de crises, da mesma forma que com qualquer anticonvulsivante. A retirada, quando indicada, deve ser gradual e supervisionada.

Posso dar CBD junto com clobazam ou valproato?

Sim, essa é uma combinação muito comum em epilepsias refratárias. Existem interações conhecidas — especialmente com clobazam — que exigem ajuste de dose, mas não inviabilizam a combinação. Toda a estratégia é definida pelo neurologista.

Existe diferença de segurança entre Epidiolex e óleos Full Spectrum em crianças?

O Epidiolex é CBD purificado farmacêutico, com perfil de segurança extensamente estudado em ensaios clínicos. Os óleos Full Spectrum contêm CBD predominante mais traços de outros canabinoides e terpenos. Ambos têm perfil de segurança considerado favorável; a escolha depende do quadro, do acesso e da decisão médica.

O CBD pode ser usado em síndromes específicas como Dravet e Lennox-Gastaut?

Sim — essas são justamente as condições para as quais o CBD tem aprovação regulatória mais consolidada e a maior base de evidência. Aprofundamos o tema em nosso artigo sobre CBD para Síndrome de Dravet e Lennox-Gastaut.

Crianças com outras condições associadas (autismo, déficit cognitivo) podem usar CBD com epilepsia?

Sim, muitas crianças com epilepsia refratária têm comorbidades neurológicas. O CBD é frequentemente avaliado em conjunto, e o neuropediatra coordena o tratamento considerando o quadro completo.

Como a Fito Canábica Apoia Famílias de Crianças com Epilepsia

A introdução do canabidiol no tratamento de uma criança com epilepsia é um processo que exige cuidado, paciência e equipe qualificada. A Fito Canábica oferece:

  • Conexão com médicos prescritores experientes em epilepsia pediátrica e Cannabis medicinal (Dra. Victoria Taveira, Dra. Clara Calabrich, Dr. Diego Araldi, Dra. Nathalie Vestarp).
  • Consulta online a partir de R$ 180.
  • Orientação completa sobre autorização Anvisa, importação via RDC 660 e acesso via associação.
  • Acompanhamento farmacêutico durante a fase de titulação.
  • Suporte por WhatsApp para dúvidas no dia a dia do tratamento.

O tratamento com canabidiol em epilepsia pediátrica é um tratamento sério que requer atenção profissional especializada. O melhor caminho começa pela consulta com um médico qualificado em prescrição de cannabis medicinal, preferencialmente com experiência em epilepsia. O médico avalia o caso, define o produto e a dose-alvo, e emite a receita. Depois disso, a família faz a aquisição do medicamento e inicia o tratamento conforme orientação médica. Existem caminhos que facilitam essa jornada: a Fito Canábica conecta pacientes a médicos prescritores qualificados, com consulta a partir de R$ 180.

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Sobre o autor
Dr. Fabrício Pamplona é farmacologista e pesquisador brasileiro, Doutor em Psicofarmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pelo Instituto Max Planck de Psiquiatria (Munique, Alemanha). Dedica-se há mais de 20 anos ao estudo do sistema endocanabinoide e ao desenvolvimento de terapias à base de Cannabis medicinal. Autor de mais de 50 artigos científicos publicados em revistas internacionais, é sócio da Fito Canábica e atua traduzindo a ciência da Cannabis para a prática clínica com linguagem acessível, responsabilidade e foco no paciente.

Publicado em:  ·  Atualizado em:

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou prescrição médica. O uso de Cannabis medicinal requer avaliação e prescrição de médico habilitado. Procure um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer tratamento.

Referências
  1. Devinsky O, Cross JH, Laux L, et al. Trial of Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in the Dravet Syndrome. N Engl J Med. 2017;376(21):2011-2020. doi:10.1056/NEJMoa1611618.
  2. Devinsky O, Patel AD, Cross JH, et al. Effect of Cannabidiol on Drop Seizures in the Lennox-Gastaut Syndrome. N Engl J Med. 2018;378(20):1888-1897. doi:10.1056/NEJMoa1714631.
  3. Thiele EA, Marsh ED, French JA, et al. Cannabidiol in patients with seizures associated with Lennox-Gastaut syndrome (GWPCARE4): a randomised, double-blind, placebo-controlled phase 3 trial. Lancet. 2018;391(10125):1085-1096. doi:10.1016/S0140-6736(18)30136-3.
  4. Thiele EA, Bebin EM, Bhathal H, et al. Add-on Cannabidiol Treatment for Drug-Resistant Seizures in Tuberous Sclerosis Complex: A Placebo-Controlled Randomized Clinical Trial. JAMA Neurol. 2021;78(3):285-292. doi:10.1001/jamaneurol.2020.4607.
  5. Szaflarski JP, Bebin EM, Comi AM, et al. Long-term safety and treatment effects of cannabidiol in children and adults with treatment-resistant epilepsies: Expanded access program results. Epilepsia. 2018;59(8):1540-1548. doi:10.1111/epi.14477.
  6. Gaston TE, Bebin EM, Cutter GR, Liu Y, Szaflarski JP. Interactions between cannabidiol and commonly used antiepileptic drugs. Epilepsia. 2017;58(9):1586-1592. doi:10.1111/epi.13852.
  7. World Health Organization. Cannabidiol (CBD) Critical Review Report. WHO Expert Committee on Drug Dependence — 40th ECDD Meeting. Geneva: WHO; 2018.
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