Para quem vive com esclerose múltipla (EM), iniciar qualquer tratamento complementar levanta uma pergunta inevitável: é seguro usar isso por meses ou anos seguidos? No caso do canabidiol e dos canabinoides em geral, essa dúvida é ainda mais comum — afinal, muitos pacientes associam Cannabis com incerteza regulatória ou risco não mapeado. A boa notícia é que existe literatura científica robusta, incluindo estudos de longa duração em populações reais de pacientes com EM, que permite responder essa pergunta com substância.
A Resposta Direta: o canabidiol é seguro para uso prolongado na EM?
Sim — com base nos dados disponíveis, os canabinoides utilizados no contexto da esclerose múltipla apresentam um perfil de segurança favorável para uso prolongado, especialmente quando comparados a medicamentos antiespásticos convencionais como baclofeno e tizanidina.
O maior estudo real-world sobre o tema é o SA.FE. (Safety and Efficacy), conduzido na Itália por Patti e colaboradores (2016, Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry), com 1.615 pacientes com EM e espasticidade resistente. O estudo acompanhou o uso de nabiximols (combinação CBD:THC 1:1 em spray oromucoso) em condições de prática clínica real, por períodos prolongados, e documentou:
- Perfil de eventos adversos leve a moderado na grande maioria dos casos
- Ausência de efeitos graves que levassem à interrupção em massa do tratamento
- Boa tolerabilidade geral, com efeitos colaterais predominantemente no início do uso e relacionados à fase de titulação
- Sem sinais de dependência física ou psicológica clinicamente relevante
Como o sistema endocanabinoide se relaciona com a tolerabilidade a longo prazo
“O sistema endocanabinoide está presente em praticamente todos os tecidos do sistema nervoso central e periférico. Isso significa que, ao modular esse sistema com canabidiol ou com combinações CBD:THC, estamos trabalhando dentro de uma via que o próprio organismo utiliza para regular inflamação, dor e espasticidade — o que explica, em parte, o perfil de segurança favorável em uso contínuo.”
— Dr. Fabrício Pamplona, Farmacologista e Pesquisador
Diferente de fármacos que bloqueiam receptores de forma contínua e podem causar adaptações problemáticas ao longo do tempo (como ocorre com benzodiazepínicos e alguns antiespásticos), o canabidiol atua como modulador do sistema endocanabinoide — não como agonista direto potente dos receptores CB1 e CB2. Isso contribui para que sua tolerância e dependência sejam significativamente menores.
Estudos pré-clínicos também apontaram propriedades neuroprotetoras do CBD em modelos animais de EM (Mecha et al., 2013, Neurobiology of Disease; Kozela et al., 2011, British Journal of Pharmacology), sugerindo que, além de não causar dano neurológico, o canabidiol pode exercer proteção. Vale ressaltar: esses dados são pré-clínicos e ainda não foram confirmados em ensaios clínicos controlados em humanos com EM — portanto, devem ser interpretados com cautela.
O que dizem os estudos sobre segurança em uso prolongado
Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry
N = 1.615 pacientes com EM e espasticidade resistente — o maior estudo real-world com canabinoides na EM. Avaliou segurança e eficácia em uso prolongado de nabiximols (CBD:THC 1:1). Conclusão: perfil de segurança favorável, efeitos adversos principalmente leves, sem sinais de toxicidade a longo prazo.
Outros estudos relevantes confirmam esse padrão:
- Novotna et al. (2011, European Journal of Neurology) — RCT com 572 pacientes com espasticidade refratária. 42% obtiveram melhora ≥30% na espasticidade com nabiximols vs. 23% no placebo. Os eventos adversos foram predominantemente leves e relacionados ao SNC (tontura, sonolência transitória).
- Collin et al. (2007, European Journal of Neurology) — RCT com 189 pacientes. Nabiximols mostrou redução significativa na escala de espasticidade NRS, com tolerabilidade adequada durante o tratamento.
- Torres-Suárez & Márquez-Romero (2023, Multiple Sclerosis and Related Disorders) — Revisão sistemática recente que confirma evidência consistente de benefício de canabinoides (especialmente CBD:THC) em espasticidade, dor e distúrbios de sono na EM, com perfil de segurança aceitável.
Como o perfil de segurança se compara aos antiespásticos convencionais?
Essa comparação é relevante porque muitos pacientes com EM já fazem uso de baclofeno ou tizanidina — e precisam entender o contexto antes de cogitar o canabidiol como terapia complementar.
| Medicamento | Efeitos adversos comuns | Risco com uso prolongado |
|---|---|---|
| Baclofeno | Sedação intensa, fraqueza muscular, confusão, depressão | Dependência; síndrome grave de abstinência se retirado abruptamente |
| Tizanidina | Sonolência, boca seca, hipotensão, elevação de enzimas hepáticas | Hepatotoxicidade em uso contínuo; requer monitoramento de função hepática |
| Benzodiazepínicos | Sedação, tolerância, comprometimento cognitivo | Alto potencial de dependência; déficit cognitivo persistente |
| Canabinoides (CBD:THC) | Tontura (inicial), sonolência leve, boca seca | Sem dependência física relevante; efeitos diminuem com titulação adequada |
As opções citadas servem para comparar composição e custo; o medicamento adequado — inclusive quando a resposta clínica exige outro perfil de canabinoides ou maior proporção de THC — é definido pelo médico com base na sua condição e evolução. O uso concomitante de canabinoides com antiespásticos deve sempre ser discutido com o neurologista. Veja mais em Canabidiol e Medicamentos da Esclerose Múltipla: Posso Combinar?
Aplicação prática: o que esperar em termos de segurança
Quais efeitos colaterais podem aparecer?
Em uso prolongado, os efeitos adversos mais documentados nos estudos com canabinoides na EM são:
- Tontura e desequilíbrio — mais frequente nas primeiras semanas, durante a titulação da dose
- Sonolência leve — transitória, geralmente melhora com ajuste do horário de administração
- Boca seca — comum, leve, sem impacto funcional relevante
- Náusea leve — especialmente se o produto for tomado em jejum
Esses efeitos são tipicamente dose-dependentes e transitórios. Quando persistem, indicam que a dose precisa de ajuste — não que o tratamento deve ser interrompido. O médico prescritor é o parceiro para fazer essa titulação.
CBD isolado ou Full Spectrum: existe diferença de segurança?
Uma diferença importante: a maior parte da evidência clínica na EM vem de nabiximols (CBD:THC 1:1), não de CBD isolado. Isso é relevante porque o THC, em doses mais elevadas, pode causar ansiedade, tontura e euforia — efeitos que não são associados ao CBD puro.
No Brasil, os produtos Full Spectrum autorizados pela ANVISA contêm até 0,3% de THC — quantidade muito inferior à dos estudos com nabiximols. Isso significa que o perfil de segurança do Full Spectrum importado via RDC 660 é ainda mais favorável do que o documentado nesses ensaios clínicos. Para saber mais sobre dosagem e como calcular o número de gotas, veja: Dose de Canabidiol para Esclerose Múltipla: Quantas Gotas Tomar.
Existem muitos medicamentos à base de Cannabis medicinal disponíveis no mercado. Os produtos citados a seguir são mencionados como parâmetro ilustrativo de composição e faixa de preço — não constituem recomendação de compra. A escolha do medicamento, da dose e da via de acesso é sempre definida pelo médico prescritor com base no quadro clínico individual do paciente.
Concentração: 200mg/mL | 1 gota ≈ 4,4mg
R$ 350,00
Custo estimado a 50mg/dia: ~R$ 88/mês · a 100mg/dia: ~R$ 175/mês
Concentração: 100mg/mL | 1 gota ≈ 2,2mg
R$ 390,00
Frasco de maior volume; custo mensal competitivo em doses intermediárias
Concentração equilibrada CBD:THC | Requer receita médica e autorização ANVISA
R$ 450,00
Perfil mais próximo ao nabiximols dos estudos clínicos. Indicado pelo médico quando maior participação de THC é necessária para espasticidade refratária.
As opções citadas são exemplos para comparar composição e custo; o medicamento adequado — inclusive quando a resposta exige outro espectro de canabinoides ou maior proporção de THC — é definido pelo médico com base na sua condição, titulação e evolução.
Perguntas Frequentes
O canabidiol pode ser usado por anos sem riscos para quem tem EM?
Os dados disponíveis — incluindo o estudo SA.FE. com 1.615 pacientes acompanhados em condições reais — sugerem que sim: canabinoides podem ser usados a longo prazo na EM com perfil de segurança favorável. Efeitos adversos graves são raros e geralmente relacionados à titulação inadequada da dose. Como em qualquer tratamento crônico, o acompanhamento médico periódico é essencial.
O canabidiol causa dependência em pacientes com esclerose múltipla?
A OMS, em seu relatório crítico de 2018, concluiu que o CBD não apresenta potencial de dependência clinicamente relevante. Nos estudos com nabiximols na EM, tampouco foram documentados casos de dependência física ou psicológica. Isso contrasta com alguns antiespásticos convencionais, como o baclofeno, que pode gerar síndrome de abstinência grave se retirado abruptamente.
Quais são os efeitos colaterais mais comuns do canabidiol na EM?
Os mais reportados nos estudos são tontura leve, sonolência transitória, boca seca e náusea ocasional — todos leves a moderados e predominantes nas primeiras semanas de tratamento. Em sua maioria, reduzem significativamente com a titulação gradual da dose e o ajuste do horário de administração.
O canabidiol prejudica o fígado em uso prolongado?
O risco de hepatotoxicidade pelo CBD existe apenas em doses muito elevadas (da ordem de 10–25 mg/kg/dia, usadas em estudos com epilepsia grave como Epidiolex). Nas faixas de dose utilizadas para EM — geralmente 50–150 mg/dia no total — o risco hepático é considerado baixo. A tizanidina, por comparação, exige monitoramento rotineiro de enzimas hepáticas mesmo em doses habituais.
CBD isolado ou Full Spectrum é mais seguro para EM?
Do ponto de vista da segurança pura, ambos têm perfis favoráveis. Full Spectrum com até 0,3% de THC (padrão ANVISA) tem tolerabilidade muito boa. A vantagem clínica do Full Spectrum é o efeito entourage — sinergia entre canabinoides e terpenos — que tende a potencializar a resposta terapêutica. Em pacientes com sensibilidade documentada ao THC, o Broad Spectrum ou o isolado são alternativas, conforme avaliação médica.
O canabidiol interfere nos medicamentos modificadores da doença da EM?
Há evidência de que o CBD é metabolizado pelo sistema CYP450 do fígado, podendo interagir com medicamentos que utilizam a mesma via. Interferons, fingolimode, natalizumabe e ocrelizumabe têm mecanismos diferentes e o risco de interação clínica relevante é considerado baixo para a maioria — mas essa avaliação deve ser feita pelo médico caso a caso. Veja mais em Canabidiol e Medicamentos da Esclerose Múltipla: Posso Combinar?
O uso prolongado de canabidiol pode piorar os sintomas cognitivos da EM?
Ao contrário de medicamentos como benzodiazepínicos — que causam comprometimento cognitivo com uso contínuo — o CBD não apresenta esse padrão. Estudos pré-clínicos sugerem efeitos neuroprotetores. Em humanos, não há evidência de que o CBD em doses terapêuticas cause declínio cognitivo; pelo contrário, melhoras em sono e ansiedade podem contribuir indiretamente para melhor função cognitiva.
Canabidiol pode ser usado junto com baclofeno na EM?
Sim, em muitos casos médicos combinam canabidiol com antiespásticos convencionais — especialmente em espasticidade refratária. O importante é que essa combinação seja supervisionada pelo médico prescritor, pois ambos têm ação sobre o sistema nervoso central e podem ter efeitos aditivos em sonolência e coordenação motora. Nunca modifique doses de baclofeno por conta própria.
O canabidiol protege os neurônios na esclerose múltipla?
Estudos pré-clínicos (Mecha et al., 2013; Kozela et al., 2011) mostraram propriedades neuroprotetoras e anti-inflamatórias do CBD em modelos animais de EM. Esses dados são promissores, mas ainda não foram confirmados em ensaios clínicos controlados em humanos — portanto, não devem ser usados como argumento clínico definitivo. O uso atual é respaldado principalmente pelos benefícios documentados em espasticidade, dor e sono.
Canabidiol pode substituir os medicamentos da esclerose múltipla?
O canabidiol e os canabinoides são tratamentos complementares na EM, não substitutos dos medicamentos modificadores da doença (como interferons ou anticorpos monoclonais). Podem complementar o manejo sintomático, especialmente de espasticidade, dor e sono. Para saber mais, veja: Canabidiol Pode Substituir os Medicamentos da Esclerose Múltipla?
Quanto tempo demora para saber se o canabidiol está sendo tolerado bem a longo prazo?
A fase de titulação — período com maior probabilidade de efeitos colaterais — costuma durar de 2 a 4 semanas. Após esse período, a maioria dos pacientes que apresentaram boa tolerância inicial tende a manter esse perfil no longo prazo. Estudos como o SA.FE. confirmam que os eventos adversos mais comuns são concentrados no início do tratamento.
Como a Fito Canábica Apoia Pacientes com Esclerose Múltipla
O tratamento com canabidiol na esclerose múltipla é uma jornada de longo prazo que exige acompanhamento especializado. A Fito Canábica foi criada para facilitar esse caminho em todas as etapas:
- 🩺 Consulta médica online com prescritores qualificados (Victoria Taveira, Clara Calabrich, Diego Araldi, Nathalie Vestarp) — a partir de R$ 180
- 📋 Orientação completa sobre autorização ANVISA e importação de medicamentos via RDC 660
- 💊 Acesso a medicamentos com ótimo custo-benefício — com foco na sustentabilidade do tratamento a longo prazo
- 📱 Acompanhamento farmacêutico durante a titulação e ajuste de dose
- 💬 Suporte por WhatsApp para dúvidas no tratamento
- 🔄 Consultas de retorno periódicas para monitoramento do perfil de segurança
O tratamento com canabidiol na EM é um tratamento sério que requer atenção profissional especializada. O melhor caminho começa pela consulta com um médico qualificado em prescrição de Cannabis medicinal, preferencialmente com experiência em doenças neurológicas e esclerose múltipla. O médico avalia o caso, considera as interações com os tratamentos em curso, define o produto e a dose-alvo, e emite a receita. Depois disso, o paciente faz a aquisição do medicamento e inicia o tratamento conforme orientação médica. A Fito Canábica conecta pacientes a médicos prescritores qualificados, com consulta a partir de R$ 180.
Agende sua consulta com os médicos prescritores da Fito Canábica →
Leia também
- Canabidiol e Esclerose Múltipla: Guia Completo sobre Espasticidade, Dor e Tratamento
- Dose de Canabidiol para Esclerose Múltipla: Quantas Gotas Tomar
- Canabidiol e Medicamentos da Esclerose Múltipla: Posso Combinar?
- Canabidiol Pode Substituir os Medicamentos da Esclerose Múltipla?
- Efeitos Colaterais do Canabidiol: O Que Esperar
- Dosagem de Canabidiol: Guia Completo
- Full Spectrum, Broad Spectrum e Isolado: Entenda as Diferenças
- Autorização ANVISA para Canabidiol: Passo a Passo
Dr. Fabrício Pamplona é farmacologista e pesquisador brasileiro, Doutor em Psicofarmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pelo Instituto Max Planck de Psiquiatria (Munique, Alemanha). Dedica-se há mais de 20 anos ao estudo do sistema endocanabinoide e ao desenvolvimento de terapias à base de Cannabis medicinal. Autor de mais de 50 artigos científicos publicados em revistas internacionais, é sócio da Fito Canábica e atua traduzindo a ciência da Cannabis para a prática clínica com linguagem acessível, responsabilidade e foco no paciente.
Publicado em:
·
Atualizado em:
Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo.
Não substitui consulta, diagnóstico ou prescrição médica. O uso de Cannabis medicinal requer
avaliação e prescrição de médico habilitado. Procure um profissional de saúde qualificado antes
de iniciar qualquer tratamento.
Referências
- Patti F, Messina S, Solaro C, et al. (SA.FE. study). Efficacy and safety of cannabinoid oromucosal spray for multiple sclerosis spasticity. Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry. 2016.
- Novotna A, Mares J, Ratcliffe S, et al. A randomized, double-blind, placebo-controlled, parallel-group, enriched-design study of nabiximols as add-on therapy in subjects with refractory spasticity caused by multiple sclerosis. European Journal of Neurology. 2011.
- Collin C, Davies P, Mutiboko IK, Ratcliffe S. Randomized controlled trial of cannabis-based medicine in spasticity caused by multiple sclerosis. European Journal of Neurology. 2007.
- Zajicek J, Fox P, Sanders H, et al. (CAMS Study). Cannabinoids for treatment of spasticity and other symptoms related to multiple sclerosis: multicentre randomised placebo-controlled trial. The Lancet. 2003.
- Rog DJ, Nurmikko TJ, Friede T, Young CA. Randomized, controlled trial of cannabis-based medicine in central pain in multiple sclerosis. Neurology. 2005.
- Markova J, Essner U, Akmaz B, et al. Sativex as add-on therapy vs further optimized first-line ANTispastics (SAVANT) in resistant multiple sclerosis spasticity. International Journal of Neuroscience. 2019.
- Torres-Suárez E, Márquez-Romero JM. Cannabinoids for the treatment of multiple sclerosis symptoms: a systematic review. Multiple Sclerosis and Related Disorders. 2023.
- Giacoppo S, Bramanti P, Mazzon E. Sativex in the management of multiple sclerosis-related spasticity: An overview of the last decade of clinical evaluation. Multiple Sclerosis and Related Disorders. 2017.
- Mecha M, Feliu A, Inigo PM, et al. Cannabidiol provides long-lasting protection against the deleterious effects of inflammation in a viral model of multiple sclerosis. Neurobiology of Disease. 2013. [Estudo pré-clínico]
- Kozela E, Lev N, Kaushansky N, et al. Cannabidiol inhibits pathogenic T cells, decreases spinal microglial activation and ameliorates multiple sclerosis-like disease in C57BL/6 mice. British Journal of Pharmacology. 2011. [Estudo pré-clínico]
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Critical Review Report: Cannabidiol (CBD). 2018.
