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Canabidiol para Cachorro com Epilepsia: O Que a Ciência Mostra

Ver um cachorro tendo uma crise convulsiva é uma das experiências mais assustadoras para qualquer tutor. O corpo do animal endurece, há tremores, perda de consciência, salivação intensa — e aquela sensação de impotência de quem não sabe o que fazer. Quando as crises se repetem e os anticonvulsivantes tradicionais (fenobarbital, brometo de potássio, imepitoína) não controlam o quadro, muitos tutores começam a pesquisar sobre canabidiol como alternativa.

A boa notícia é que a ciência veterinária já tem dados consistentes: o CBD pode ajudar cães com epilepsia idiopática refratária, especialmente como terapia adjuvante. A notícia importante é que isso precisa ser conduzido por um médico-veterinário — não por busca na internet, não por indicação de pet shop, não por dose extrapolada de humanos.

⚠️ Aviso: Este artigo é educativo e não substitui consulta veterinária. O canabidiol em cães precisa ser prescrito e acompanhado por médico-veterinário, com avaliação clínica, exames laboratoriais e ajuste de dose individualizado. Nunca administre CBD humano ou veterinário ao seu animal sem orientação profissional.

A Resposta Direta: o canabidiol funciona em cachorro com epilepsia?

Sim — há evidência veterinária mostrando que o canabidiol, usado como terapia adjuvante (ou seja, somado ao anticonvulsivante já prescrito), pode reduzir a frequência de crises em cães com epilepsia idiopática refratária. Os principais estudos foram conduzidos pela Colorado State University, e os resultados apontam para benefício em uma parcela significativa dos animais tratados.

O ponto mais importante a entender é o seguinte:

  • O CBD não substitui o anticonvulsivante. Ele é usado somado ao tratamento veterinário convencional, não no lugar dele.
  • Cães metabolizam canabinoides de forma diferente de humanos. Eles têm muito mais receptores CB1 no cerebelo e tronco encefálico — por isso são especialmente sensíveis ao THC, que pode causar intoxicação grave. Produtos para cães devem ter THC praticamente nulo.
  • A dose é diferente da dose humana. Cães geralmente exigem doses por kg superiores às usadas em pessoas, e o ajuste é feito pelo veterinário com base no peso, na resposta clínica e em exames de função hepática.
  • A indicação principal é epilepsia idiopática refratária — quadros em que o cão segue convulsionando apesar do uso adequado de fenobarbital, brometo de potássio ou imepitoína.
Em uma frase: sim, há base científica para usar canabidiol em cães com epilepsia refratária — como adjuvante, prescrito por veterinário, com produto adequado e acompanhamento clínico.

Como o canabidiol atua no cérebro do cachorro

Cães, gatos e a maioria dos mamíferos possuem o mesmo sistema endocanabinoide que nós — uma rede de receptores (CB1 e CB2), neurotransmissores e enzimas que regula sono, dor, humor, apetite e, especialmente importante neste caso, a excitabilidade neuronal.

Em quadros epilépticos, o que acontece é uma descarga elétrica desordenada de grupos de neurônios. O canabidiol parece atuar modulando essa hiperexcitabilidade por mecanismos múltiplos — ação sobre receptores TRPV1, GPR55, modulação dos canais de cálcio e influência sobre a recaptação de adenosina. Esses são os mesmos mecanismos descritos nos estudos com humanos.

“O CBD não ‘desliga’ o cérebro do animal como um sedativo. O que ele faz é modular a excitabilidade neuronal — torna mais difícil que aquele foco epiléptico dispare uma crise. Por isso o efeito não é imediato: ele se constrói ao longo de semanas, conforme o organismo do cão chega a um estado de equilíbrio com a medicação.” — Dr. Fabrício Pamplona, farmacologista.

Há, porém, uma diferença anatômica importante: cães têm maior densidade de receptores CB1 no cerebelo, tronco encefálico e bulbo olfatório do que humanos. Na prática, isso significa duas coisas:

  1. Cães são muito mais sensíveis ao THC — daí a importância absoluta de produtos com THC nulo ou em traços ínfimos.
  2. O perfil de efeitos colaterais (ataxia, sedação, alteração de marcha) aparece mais rápido em cães que em humanos quando há THC mal dosado.

O que dizem os estudos veterinários

A literatura veterinária sobre CBD em epilepsia canina ainda é menor que a humana, mas existe e é consistente.

McGrath et al. (2019) — Colorado State University, JAVMA
RCT pioneiro com cães portadores de epilepsia idiopática refratária. Usando 2,5 mg/kg de CBD duas vezes ao dia (5 mg/kg/dia total) por 12 semanas, como adjuvante ao tratamento anticonvulsivante já estabelecido, o grupo tratado apresentou redução estatisticamente significativa na frequência de crises em comparação ao placebo. Aproximadamente 89% dos cães tratados tiveram alguma redução de crises. Boa tolerabilidade — efeito colateral mais comum foi elevação leve de fosfatase alcalina (ALP), reversível.

Estudos posteriores e relatos de série de casos foram na mesma direção: redução da frequência de crises em parcela significativa dos animais, principalmente quando associado a fenobarbital ou brometo. A ressalva honesta é que o tamanho amostral desses estudos é menor que o dos grandes ensaios humanos com Síndrome de Dravet ou Lennox-Gastaut (Devinsky 2017, Devinsky 2018, Thiele 2018), mas a direção dos resultados é coerente: em epilepsia refratária, CBD adjuvante reduz crises.

Importante notar que os estudos veterinários, assim como os humanos, mostram que o efeito não é imediato. A redução de crises se estabelece ao longo de semanas, com titulação progressiva da dose.

Aplicação prática: dose, produto e acompanhamento

Faixas de dose orientativas (apenas referência — veterinário define)

Diferente de humanos, em cães a dose por peso é a forma usual de cálculo, e os números são maiores. As referências mais usadas em medicina veterinária para epilepsia são:

EtapaFaixa orientativa (CBD)Observação
Dose inicial1 a 2 mg/kg, 2x ao diaAdaptação inicial, monitora-se tolerância
Dose terapêutica (estudo McGrath)2,5 mg/kg, 2x ao dia (≈ 5 mg/kg/dia)Faixa que demonstrou redução de crises em RCT
Dose alta (refratários)Pode ir além dissoSempre com acompanhamento veterinário e exames de função hepática

Exemplo prático: um cão de 10 kg, na dose terapêutica do estudo, receberia cerca de 25 mg de CBD, 2x ao dia (50 mg/dia totais). Em um óleo de 200 mg/mL (concentração comum em frascos 6000 mg/30 mL), isso corresponderia a aproximadamente 0,25 mL por administração — algo em torno de 11 a 12 gotas, duas vezes ao dia.

Por que essa dose orientativa não substitui veterinário: peso, raça, idade, função hepática, anticonvulsivantes em uso e histórico de crises mudam completamente o cálculo. Doses elevadas exigem monitoramento de enzimas hepáticas (ALT, AST, ALP). E a interação com fenobarbital, especialmente, requer ajuste de dose feito por profissional.

Produto adequado para cães

O ideal é um produto com THC praticamente nulo (Broad Spectrum ou Isolado), pelas razões já explicadas — cães são desproporcionalmente sensíveis ao THC. Existem linhas veterinárias específicas no exterior, mas no Brasil é comum o veterinário prescrever óleo Full Spectrum de baixíssimo THC (≤0,3%) ou Broad Spectrum, calculando a dose pelo peso do animal.

Existem muitos medicamentos à base de Cannabis medicinal disponíveis no mercado. Os produtos citados a seguir são mencionados como parâmetro ilustrativo de composição e faixa de preço — não constituem recomendação de compra, especialmente para uso veterinário. A escolha do produto, da dose e da via de acesso para cães é sempre definida pelo médico-veterinário com base no quadro clínico individual do animal.

MarcaProdutoVolumePreço
CannavivaFull Spectrum CBD 6000 mg30 mLR$ 350
Canna RiverFull Spectrum Classic CBD 6000 mg60 mLR$ 390
cbdMDFull Spectrum CBD 6000 mg30 mLR$ 377
Lazarus NaturalsFull Spectrum CBD 1500 mg30 mLR$ 156
ASPAEC (associação)Óleo Full Spectrum (taxa associativa)R$ 30

Em cães, frascos de alta concentração (6000 mg) tendem a ter melhor custo-benefício porque a dose total é maior — um animal de 20 kg em dose terapêutica pode consumir 100 mg/dia, e um frasco de 6000 mg dura cerca de 60 dias. Já um frasco de 1500 mg duraria apenas 15 dias na mesma dose. As opções citadas servem para comparar composição e custo; o medicamento adequado para cada cão — inclusive a decisão entre Full, Broad ou Isolado — é definido pelo veterinário.

Custo mensal estimado para cães

Considerando um cão de 15 kg em dose terapêutica de 5 mg/kg/dia (75 mg/dia), com Cannaviva 6000 mg/30 mL (200 mg/mL) a R$ 350:

  • Consumo diário: 75 mg ≈ 0,375 mL ≈ 17 gotas/dia
  • Duração do frasco: ~80 dias
  • Custo mensal estimado: ~R$ 130/mês

Cães menores (5–10 kg) podem ter custos mensais ainda mais baixos. Cães grandes (30 kg+) podem chegar a custos mensais maiores conforme a dose final estabelecida pelo veterinário.

Tempo até ver resultado

A literatura veterinária sugere que o efeito sobre as crises se estabelece ao longo de semanas. Não é um medicamento de ação aguda — não corta uma crise em curso. O que se observa é, ao longo de 4 a 12 semanas, redução da frequência ou da intensidade dos episódios. Tutores ansiosos por resultado imediato precisam alinhar expectativas com o veterinário.

Acompanhamento e segurança

Em cães epilépticos, especialmente os já em uso de fenobarbital, recomenda-se:

  • Exames de função hepática (ALT, AST, ALP) antes de iniciar e periodicamente
  • Diário de crises (data, duração, características) para o veterinário avaliar resposta
  • Não interromper anticonvulsivantes por conta própria — risco real de crises de rebote
  • Atenção a sinais de sedação excessiva, ataxia ou alterações comportamentais

Perguntas Frequentes

Cachorro com epilepsia pode tomar canabidiol?

Sim, com prescrição e acompanhamento de médico-veterinário. A evidência principal vem de estudos da Colorado State University, que mostraram redução de crises em cães com epilepsia idiopática refratária ao usar CBD como adjuvante ao tratamento anticonvulsivante já estabelecido. Não substitui o medicamento veterinário convencional.

Qual a dose de canabidiol para cachorro com epilepsia?

A dose terapêutica usada nos estudos veterinários é de cerca de 2,5 mg/kg duas vezes ao dia (≈ 5 mg/kg/dia). A dose inicial costuma ser menor (1 a 2 mg/kg, 2x ao dia) e o veterinário ajusta progressivamente com base na resposta clínica e em exames laboratoriais. Doses humanas não devem ser extrapoladas — o cálculo é feito pelo profissional.

Posso dar o mesmo canabidiol que uso em humanos para o meu cachorro?

Pode acontecer de o veterinário prescrever um óleo Full Spectrum ou Broad Spectrum de uso humano para cães, calculando a dose pelo peso. Mas a decisão é sempre do veterinário. Nunca administre por conta própria — produtos com teor maior de THC, alguns aromatizantes (xilitol, por exemplo) e concentrações inadequadas podem ser perigosos para o animal.

O canabidiol substitui o fenobarbital ou brometo no cachorro?

Não. Nos estudos, o CBD foi usado como terapia adjuvante — somado ao anticonvulsivante convencional, não no lugar dele. A interrupção abrupta de fenobarbital ou brometo de potássio em um cão epiléptico tem risco real de desencadear crises graves. Qualquer ajuste no esquema de medicação deve ser feito pelo veterinário, gradualmente.

Em quanto tempo o canabidiol começa a reduzir crises em cães?

Não há cronologia precisa estabelecida, mas a literatura veterinária sugere que o efeito sobre a frequência de crises se constrói ao longo de semanas, geralmente em uma janela de 4 a 12 semanas, com titulação progressiva da dose. Não é um medicamento de ação aguda — não interrompe uma crise em curso.

Cachorro pode tomar canabidiol com THC?

Cães são especialmente sensíveis ao THC porque têm densidade muito maior de receptores CB1 no cerebelo e tronco encefálico. Por isso, a recomendação geral é usar produtos com THC praticamente nulo (Broad Spectrum, Isolado) ou Full Spectrum com teor mínimo de THC (≤0,3%, autorizado pela Anvisa), sempre com dose calculada pelo veterinário. THC em concentração maior pode causar intoxicação canina (ataxia, sedação profunda, hipersalivação).

Quais efeitos colaterais o canabidiol pode causar em cães?

Os efeitos colaterais descritos nos estudos veterinários são leves: sonolência, alteração de apetite e elevação reversível de enzimas hepáticas (especialmente fosfatase alcalina). Por isso o veterinário acompanha com exames laboratoriais. Em geral são manejáveis com ajuste de dose e não exigem interrupção do tratamento.

Canabidiol interage com o fenobarbital usado pelo meu cachorro?

Sim, pode haver interação metabólica, semelhante ao que se observa em humanos com clobazam. Por isso o uso conjunto exige acompanhamento veterinário, monitoramento clínico e, em alguns casos, ajuste da dose do anticonvulsivante. Em humanos, esse tipo de interação está bem documentado (Gaston et al., 2017); o paralelo veterinário pede a mesma cautela.

O canabidiol veterinário é diferente do humano?

No exterior existem linhas formuladas especificamente para pets, geralmente com sabores adaptados e sem aditivos perigosos para animais. No Brasil é comum o veterinário prescrever óleos importados via RDC 660 (mesma via do uso humano) calculando a dose pelo peso do animal. O importante é o produto ter laudo de pureza, espectro adequado e ausência de aditivos tóxicos para cães.

Como conseguir canabidiol para meu cachorro com receita veterinária?

O caminho é semelhante ao humano: consulta com médico-veterinário com experiência em fitoterápicos canabinoides, prescrição, e acesso ao produto via importação direta com autorização Anvisa (RDC 660), associações de pacientes ou farmácias que comercializam produtos nacionais. O veterinário orienta o melhor caminho conforme o caso e o porte do animal.

Como a Fito Canábica Apoia Tutores e Pacientes

A Fito Canábica é especializada em conectar pacientes humanos a médicos prescritores qualificados em Cannabis medicinal. Para casos veterinários, recomendamos sempre buscar um médico-veterinário com formação em fitoterapia canabinoide, que poderá avaliar o cão, prescrever e acompanhar o tratamento.

Para tutores que também tratam um familiar humano com epilepsia (situação muito comum, já que a busca por CBD na família frequentemente começa por uma criança ou adulto epiléptico), a Fito oferece:

  • Consulta com médicos prescritores qualificados a partir de R$ 180
  • Orientação sobre autorização Anvisa via RDC 660 (importação direta)
  • Acesso a produtos importados com bom custo-benefício
  • Acompanhamento farmacêutico durante a titulação
  • Suporte por WhatsApp para dúvidas no tratamento humano

O tratamento com canabidiol — seja em humanos, seja em animais — é um tratamento sério que requer atenção profissional especializada. Para humanos, o melhor caminho começa pela consulta com um médico qualificado em prescrição de cannabis medicinal, preferencialmente com experiência em epilepsia. O médico avalia o caso, define o produto e a dose-alvo, e emite a receita. Depois disso, o paciente faz a aquisição do medicamento e inicia o tratamento conforme orientação. A Fito Canábica conecta pacientes a esses profissionais — para o seu cachorro, a recomendação é sempre o veterinário.

Agende sua consulta com os médicos prescritores da Fito Canábica →

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Sobre o autor
Dr. Fabrício Pamplona é farmacologista e pesquisador brasileiro, Doutor em Psicofarmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pelo Instituto Max Planck de Psiquiatria (Munique, Alemanha). Dedica-se há mais de 20 anos ao estudo do sistema endocanabinoide e ao desenvolvimento de terapias à base de Cannabis medicinal. Autor de mais de 50 artigos científicos publicados em revistas internacionais, é sócio da Fito Canábica e atua traduzindo a ciência da Cannabis para a prática clínica com linguagem acessível, responsabilidade e foco no paciente.

Publicado em:  ·  Atualizado em:

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou prescrição médica ou veterinária. O uso de Cannabis medicinal em humanos requer avaliação e prescrição de médico habilitado; em animais, requer prescrição e acompanhamento de médico-veterinário. Procure um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer tratamento.

Referências

  1. McGrath S, Bartner LR, Rao S, Packer RA, Gustafson DL. Randomized blinded controlled clinical trial to assess the effect of oral cannabidiol administration in addition to conventional antiepileptic treatment on seizure frequency in dogs with intractable idiopathic epilepsy. JAVMA. 2019.
  2. Devinsky O, Cross JH, Laux L, et al. Trial of Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in the Dravet Syndrome. N Engl J Med. 2017;376(21):2011-2020. DOI: 10.1056/NEJMoa1611618.
  3. Devinsky O, Patel AD, Cross JH, et al. Effect of Cannabidiol on Drop Seizures in the Lennox-Gastaut Syndrome. N Engl J Med. 2018;378(20):1888-1897. DOI: 10.1056/NEJMoa1714631.
  4. Thiele EA, Marsh ED, French JA, et al. Cannabidiol in patients with seizures associated with Lennox-Gastaut syndrome (GWPCARE4). The Lancet. 2018. DOI: 10.1016/S0140-6736(18)30136-3.
  5. Szaflarski JP, Bebin EM, Comi AM, et al. Long-term safety and treatment effects of cannabidiol in children and adults with treatment-resistant epilepsies. Epilepsia. 2018. DOI: 10.1111/epi.14477.
  6. Gaston TE, Bebin EM, Cutter GR, Liu Y, Szaflarski JP. Interactions between cannabidiol and commonly used antiepileptic drugs. Epilepsia. 2017. DOI: 10.1111/epi.13852.
  7. World Health Organization. Cannabidiol (CBD) Critical Review Report. WHO Expert Committee on Drug Dependence — 40th ECDD Meeting, 2018.
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